Talvez espante mas comprei, um após um, os quarenta e cinco volumes das Obras Completas do «Lénine», naquela impressão encadernada tirada pelas Edições do Progresso na então União Soviética. Os meus na versão francesa com apresentação do entretanto amaldiçoado Roger Garaudy.
Os últimos tomos são dedicados às cartas. Lembro-me, curiosamente, menos do teor de O Estado e a Revolução, ou do Que Fazer?, mas recordo-me das cartas que Vladimir Ilitch Oulianov escreveu à família, sobretudo a partir do seu exílio na Sibéria, aonde fazia chegar livros que encomendava, através da irmã, vindos por empréstimo domiciliário da Biblioteca da Ordem dos Advogados em Moscovo.
Numa dessas cartas dava conta de um exercício mental, indispensável para a boa saúde do espírito: tal como na ginástica, nem sempre correr, nem sempre a passo, nem sempre em flexões, também para manter o intelecto em forma, ler, escrever, traduzir, rever, em suma, variar.
Lembrei-me disto hoje que iniciei a tradução de um livro. Ao fim de cinco páginas sem dicionário, lendo a história como ninguém a lê, palavra após palavra, sentindo vontade de a ter escrito, aqui e além para revê-la, cheguei a casa desejoso de um pouco de ar puro, apetecendo uma sesta e com ela o nada fazer. Cruzei-me na vinda com um melro, luzidio, bicando laranjadamente, saltitando, espojando, esvoaçando. Descontadas as asas, estamos iguais.
6.12.08
Disse-mo um passarinho
30.11.08
A contingência
Quantas vezes acontece dizer-se e logo a seguir arrepender-se uma pessoa do que disse? Sucede o mesmo quando se escreve.
Apaguei ontem um post, como em tempos suprimi um blog. Quem tiver notado, faça o favor de deixar o assunto em paz. Apagar é isto mesmo: não se destroem os efeitos, destrói-se, sim, a intenção com que foram causados.
No final do filme Reviver o passado em Brideshead é essa a questão crucificante, com que ele é confrontado: tendo passado, uma por uma, por todas as manifestações de bem-querer, responde no final à pergunta prática quando a saber-se ao que vem e o que pretende quando protesta pelo seu amor. O destino poderia ter querido que eu saisse da sala antes da resposta. Qualquer que ela fosse, ser-me-ia insuportável vê-lo na contigência de chegar ao ponto de ter de responder.
29.11.08
Uma noite de cinema
Não pude estar porque tive de estar onde não contava ter de estar. E depois não cheguei a estar onde era para ter estado. Tudo visto, não pude estar nem onde deveria ter estado, nem onde nem deveria ter chegado a estar.
Em resumo, e para o caso de isto ser difícil, encontramo-nos todos tão perplexos, como no cinema, onde cada um vai ver o seu filme e o acaso do encontro dita, no eco do foyer, a supresa do olha quem. Depois, é só uma sala escura e a fantasia ocupar o lugar da lógica e tudo parecer tão real quanto possível.
24.11.08
O direito à vida
Quando em vez de se viver se lê e se vive a vida através da escrita, há o risco de confundirmos o sucedido com o relatado e os leitores trocarem o ocorrido com o relatado. Neste jogo de espelhos, quanto mais se ficciona mais convicção de verosimilhança se transmite. Depois, há um dia em que o autor exige ao seu público que lhe aceite um desmentido. Impossível. Atingiu então o momento em que se tornou escritor. O direito à sua identidade perdeu-se em cada uma das páginas lidas, em cada um dos livros escritos. Passou a ser o melhor intérprete da sua personagem.
23.11.08
O gritar aflito
Já a ventoinha fazia cuá cuá, num gritar aflito que anunciava o seu fim. Com a morte iminente daquilo que o refrigerava, sobreaquecido, já só funcionando intermitentemente, o velho computador chegava ao fim dos seus dias. O mundo amável que dera a luz, com a generosidade que só as almas puras em si transportam, corria o risco de interromper-se. Foi então que chegou aquele que o iria substituir. Novo, belíssimo, potente, dir-se-ia que, ao desligar-se da rede, a velha máquina sorria. Multiplicara em actos o seu amor pelos outros, a sua ânsia de viver ao dar vida.
21.11.08
A pedra filosofal
Tudo é relativo quando o homem promete. Não prometas nunca! Espera que estejas em condições de a vida te proporcionar a oportunidade. Aguarda por aquele momento em que possas dizer consegui. Não cries expectativas, não faças os olhos dos outros seguirem-te à espera. Sê honesto para com as possibilidades de falhares. Trabalha no interior de ti essa batalha de sentimentos de quem constrói destruindo-se.
No dia em que a realidade enfim surgir, fruto do teu esforço minudente ou do grandioso acaso das circunstâncias, perceberás então.
Guardarás nesse instante dentro de ti a honra de teres honrado. Mas só isso, porque é esse o momento em que o ouro se transforma em ferro. A alquimia da criação é precisamente esta transmutação no absurdo da tua condição fazedora, um Sísifo que esperasse cair ele desta vez e não a pedra.
18.11.08
O improvável leitor
De súbito alguém nos diz algo que nos revela que lê o que escrevemos. Estranho embaraço. E no entanto quem escreve fá-lo para ser lido. Quem escreve fantasia muitas vezes um leitor e dá consigo a escrever como se escrevesse uma carta. Um post é uma carta aberta a um meu caro leitor privado.
Mas há leitores improváveis, que não imaginaríamos que nos pudessem ler. Quando um desses soergue o dedo, por mais discreto que seja, há um sentimento boquiaberto que nos invade a alma atónita. E depois, na vez seguinte, quando o papel em branco nos espera, se nos lembramos dele?
É o que se está a passar agora. Encontrei-o, ao meu improvável leitor, num restaurante, pela hora do almoço. Deu-me a palavra de passe para que eu o identificasse, gabando a minha actualizada fotografia. Respondi-lhe dizendo que estou na idade em que já preciso de retocar a imagem, sobretudo quando pareço mais novo. Tenho-o agora aqui comigo, por cima do meu ombro a ler-me em cada linha. Acho que ele vai gostar de se ler aqui. Boa noite, amigo! Uma noite descansada! Prometo escrever pouco. Encontramo-nos amanhã neste local. A esta hora ou um pouco depois.
17.10.08
Eu, o outro, e ele
O que é a verdade do nosso ser? Às vezes a vida faz-nos pensar nisso, outras vezes descobre-se isso vendo a vida dos outros. Hoje foi por causa de o outro que era eu, que é assim que se chama um livro do Ruben A. e é assim que eu o sinto cada vez que me abeiro de um livro seu. Consegui ler mais umas folhas de O Mundo À Minha Procura, a auto-biografia. Comecei pelo volume segundo, talvez pela ideia que só vale a pena conhecer o que é quando passou a fase de estar a ser. Dei com ele a «lutar contra ser peludo, mal saibrado por uma natureza em que decerto havia muito mimo», ele «sempre extrovertido, animado, dador do sangue que me corria na alma, cometendo indiscrições». Vim aqui escrever isso e reler, reler para não estropiar o dito pelo modo de dizer. Solene, apesar de duas vezes ter escrito a palavra «ele». Não se diz «ele», jab. Eu sei. Foi só desta vez. Estou com preguiça de emendar. Esta sim, a preguiça, é a natureza verdadeiramente actual do meu ser. Talvez por doer ainda um pouco a cabeça. Figuradamente, claro.
15.10.08
A arte de escrever
De súbito é um sentimento de pudor que toma conta de nós. Tal como os que fazem profissão de fé em nunca receberem uma condecoração, os que renegam o dito complacente e antecipadamente legitimador desta água nunca beberei. Trata-se de uma exigência que não vem dos alçapões da ética, onde crocodilos maldosos se passeiam impunes ao lado de gazelas duvidosas, é antes uma imposição da estética, o horror ao feio, que desdenta, ridiculariza, apouca.
Preso nos torvelinho das palavras, enredado nos sentimentos que as reclamam e nas confusões que elas geram, desconexo na morfologia e incapaz nas concordâncias, há um homem que no meio da livraria da vida, na labiríntica biblioteca de Babel da sua existência, decide num gesto irreflectido o seu destino. Indiferentes, no vai-vém dos escaparates e das montras, entre sobras e reposições, esgotados uns na síncope do fora do mercado, muitos outros estirando-se em reimpressões como um gato molemente espreguiçando a sua melancolia, todos esses que são o mundo de papel de um viver imaginário, assistem.
Talvez um bocejo antológico pontue a indiferença livresca dos compêndios necessários ante tudo isso, ou o ruminar impaciente de um romance denso, trágico e consagrado ou, quem sabe, uma lágrima narrativa de um conto avulso, dor de columbina poética ante o seu arlequim prosaico, talvez assim se assinale a morte ficcional do que poderia ter sido mais um na arte de escrever.
3.10.08
O papagaio e as gralhas!
A princípio irritei-me por fazer tantos erros ao escrever. Pensei que era dislexia, deficiência que sempre tem algum chic. Depois, tentaram demonstrar-me que era excesso de inteligência. Estúpido, desconfiei. Hoje, ante o enésimo tropeção nas canelas da ortografia, enfureci-me, a ponto de mandar a escrita às urtigas. Pela tarde, frio, vingativo, mau, eis a decisão final. Mudo de estilo! Por isso, aqui vai esta nova forma de exprimir com correcção e adjuvante onomatopeica: joolpoo3e84edhdjede3´+d3«i3dyuededkoy45wskp+ddopd3lop.çºç+piiyerwgkp++09887 e assim sucessivamente! E que ninguém se atreva a dizer que dyuededkoy não se escreve assim, que eu mordo!
31.8.08
Papel de aranha
Há uma fotografia minha, que está no blog mãe, do qual surgem todos os muitos blogs, qual mãe de água da minha escrita no éter, em que dizem ver-me com um ar caduco e triste, e velho e derrotado, zangado com o mundo e de mim farto. Mas que querem, se eu já fiz o exercício mental de me ver com outros olhos e é assim que me revejo sempre?
Há uma fotografia minha que sou eu por mim fotografado. Podia estar mais novo e talvez esteja, mais alegre e rio-me muitas vezes, menos raivoso com a vida, mas eu adoro viver.
Há um fotógrafo da minha pessoa que é mestre no a la minute da existência. Com um caixote empinado num tripé, uma manga preta onde enfio a cabeça qual cegonha de olho intrigado, o balde ao lado para a revelação do negativo, sou o olha o passarinho da minha visão das coisas e da minha própria pessoa nelas ensarilhado. Aos domingos fazemos um instantâneo. Temos um álbum de folhas pretas, com separadores em papel de aranha, cada foto pregada com cantoneiras, como nos tempos em que eu era miúdo e cada imagem de mim era uma forma de todos nos rirmos em Kodak da vida existente e da que imaginávamos existir.
24.8.08
Uma grande alhada
De repente descobre-se que não há cebolas para um refogado que anime as pálidas lulinhas. O problema é que já está azeite na panela e alho a começar a fritar o que poderia ser um refogado. Sem cebola aumenta-se no alho, que há résteas sobejantes. Assim como há quem coma raia alhada, aplique-se às lulinhas a mesma regra, igual princípio. Para iludir, talvez dois cubos de um caldo culinário, daqueles cubos viscosos de cor ambígua, que nunca sei se são de marisco se para marisco.
Como medida de prevenção tempera-se com vinho, não da zurrapa para fins gastronómicos embalada em tetra-pack, sim do vinho de mesa, a fina e decantada essência vinícola, que tudo tinge de um manto tinto pascal e perfuma os ares de uma essência odorífera, preparando a alma do palato para o santo sacrifício da mesa.
Sento-me com veneração, um pão esponjoso a apoiar a prova com adjuvantes sopinhas.
Foi à hora do almoço. Ficou uma dose para um jantar. A refrigeração faz milagres. Ensopadinhas no insólito molho, marcham como lagostas.
13.8.08
A vida vivida
Tal como o senhor Palomar, descobri que a vida não é cronológica mas tem uma lógica decorrente de uma arquitectura própria. Ante o novo que nos surpreende, descobre-se que toda a vida vivida surge agora diferente. Nisso os mortos, coitados deles, estão em desvantagem: o mundo que passou fica irremediavelmente fixo, como numa cena de um filme com a Vanessa Redgrave, imóvel numa interminável pausa, o encontro de duas mulheres de que uma abdicou do homem com quem a outra não casaria sequer, a dor do sacrifício inútil por um amor que é a beleza esplendorosa dos sentimentos, para além das utilidades.
24.7.08
Um homem e o seu Destino
Voltei hoje ali. Há quantos anos eu comprava ali livros que ficaram sei lá onde ou quero lá saber onde, que tanto faz. Livros que terei lido, livros que terei tido vontade de ler, livros que em caso algum viria a ler.
Ali estava à minha espera, o livreiro de alfarrábios. Só que desta vez, restava dele uma fotografia. Reconheci-o, igual, substituído por um filho, a manter a porta aberta, em última homenagem a um pai que gostava de livros.
Sei lá hoje o que sucederá ao que dali trouxe e esforço-me por não querer saber.
Subi a rua, em gratidão interior ao Destino que me proporcionou ir ali. Cruzei-me com ele, meio desperto, quase, atrasado, a perder o encontro. Fomos ambos remoer um momento em que havia um livreiro vivo e um leitor a viver do que lia. Hoje voltei ali e uma fotografia do que fui seguiu comigo, castigando-me, contristado, a memória.
4.7.08
Espaço de memória
Cheguei ontem aqui pela noite carregado de tralha para montar a exposição. Os livros da minha biblioteca já cá estão em parte, passarei o fim-de-semana a arrumá-los, os documentos vão chegando. A partir daqui é só ir aumentando o espólio, agradecer a quem quiser ter a generosidade de contribuir. O tema mais imediato, a guerra secreta em Portugal entre 1939-1945.
Será um espaço de memória, sedeado em Faro. Inaugura-se a 12, pelas 17:30 com uma exposição sobre o Ian Fleming e uma exposição de pintura de Sonia Cabañas Cortés, uma mexicana radicada no Algarve. A tipografia entrega-me os exemplares do livro que escrevi sobre o autor do 007 precisamente na véspera. Oxalá não falhem na hora. Domingo pela noite estarei a rever os painéis do que será exposto.
No mais, será um local dedicado à cultura, uma livraria, o que puder ser para que a humanidade floresça.
Para a Liliana, minha camarada de empreendimento, é uma forma de regressar às raízes, para mim que sou um apátrida, uma forma de ficcionar que as deixo.
20.6.08
A ordem inversa
Eu deverei ter escrito algures que há livros que começo a ler do fim para o princípio. E talvez o tenha dito com tal veemência que, com um bonito sorriso de amabilidade, me lembraram que o fazia. É claro que eu, por ser muito trapalhão a escrever e os meus textos estarem sempre infestados de gralhas, já comecei a seguir o conselho de lê-los, em revisão, da direita para a esquerda, de modo a não me deixar enfeitiçar pelo sentido do escrito e ter diante dos olhos apenas palavras.
Ora como no Japão tradicional os livros se liam de trás para a frente, da direita para a esquerda e de baixo para cima, um dia destes e verei uns olhos doces de amêndoa, o livro tombado e dos mais esquecido, a meio de terminar o princípio do livro e a meio de começar a primeira linha da página.
18.6.08
Contra factos
Vi um anúncio a uma peça de teatro em que se dizia que «a história é secundária». No fundo, é isto mesmo, na sua simplicidade, a vida de cada um: variada, diversa, com altos e baixos, bons e maus momentos, há um momento em que se conclui que, afinal, a história do que se viveu é secundária. Depois, há quem escreva biografias carregadas de factos, como se essa sucessão de episódios tivesse sido viver.
14.6.08
Uma questão de desajustamento
Há um momento em que uma pessoa se farta das calças de ganga. Não por elas serem nos burgueses uma espécie de travestismo operário; talvez porque se tornam na preguiça mental da roupa ligeira dos dias em que a sociedade não espera ver-nos encasacados.
Há uma idade em que uma pessoa olha para umas calças de sarja e se pergunta «e porque não?».
Há um instante em que nos dizem que terão de acertar bainhas e nesse caso não antes de quarta-feira, porque entre aquels calças novas e o nosso velho corpo há uma questão de ajustamento.
É o instante do desapontamento, a cobra impedida de mudar a própria pele. Dura o tempo em que se pensa nisso, a tristeza a perseguir-nos em cada esquina.
Aconteceu numa loja do Colombo. Comprar roupa nova ajuda a melhorar o espírito, quando possível, naturalmente.
13.6.08
Dias assim
Há dias em que se acorda com a cabeça a estalar de dor, depois de uma noite pessimamente dormida e se vê na rua o sol e não se pode ir passear, e livros a cercar a cama e não há tempo para os ler ou folhear sequer, dias em que nos atormentam as obrigações atrasadas e os deveres que nos esperam, dias de São Remorso pelo que deixámos para trás e que teria sido bom ter vivido, dias de má consciência porque nunca há tempo para visitar sequer a nossa mãe, dias em que os amigos só não se zangam mais porque são tão poucos os amigos quando se vive isolado, dias de filhos entretidos em vez de vividos, dias em que já não se sabe mais onde tirar tempo para um momento de nós, dias em que abre o guichet da vida e ei-la, a longa fila de utentes da nossa pessoa a reclamarem, zangados connosco e consigo desesperados.
Há dias em que o pouco que se tem parece mal, como a história da camisa lavada do pobre, cercado um homem com a eterna lamúria dos que se viciaram a mostrarem ao mundo as chagas das suas insuficiências, dos seus desamparos.
Há dias assim.
Para esses dias, em que ao desejo de morrer sucede a vontade de matar, em que entre o homem e a vida surge a sombra perigosa do já não se aguentar mais, eis a seguinte frase do Vergílio Ferreira, tirada do seu «Diário Inédito», que foi o último livro que consegui ler, só por ser pequeno número de folhas: «Bons deuses! E como justificais vós as trovoadas, se não houve, num dia infeliz de quadra e uva, meia dúzia de raios disponíveis para escavar toda esta malta e in loco?»
A frase foi escrita na Nazaré em 13 de Setembro de 1948, a pretexto de uns jogos florais da Curia, por sobre a rude materialidade do tempo.
Há dias em que o pouco que se tem parece mal, como a história da camisa lavada do pobre, cercado um homem com a eterna lamúria dos que se viciaram a mostrarem ao mundo as chagas das suas insuficiências, dos seus desamparos.
Há dias assim.
Para esses dias, em que ao desejo de morrer sucede a vontade de matar, em que entre o homem e a vida surge a sombra perigosa do já não se aguentar mais, eis a seguinte frase do Vergílio Ferreira, tirada do seu «Diário Inédito», que foi o último livro que consegui ler, só por ser pequeno número de folhas: «Bons deuses! E como justificais vós as trovoadas, se não houve, num dia infeliz de quadra e uva, meia dúzia de raios disponíveis para escavar toda esta malta e in loco?»
A frase foi escrita na Nazaré em 13 de Setembro de 1948, a pretexto de uns jogos florais da Curia, por sobre a rude materialidade do tempo.
6.6.08
A vida atrasada
E eu que sou tremendamente supersticioso e que, se não consigo escrever à terceira, de modo firme e em perfeita horizontalidade, a primeira linha de uma carta - quando escrevo cartas à mão - e que vejo sinais do destino em pequenos acontecimentos banais, como neste, onde está contida uma mensagem dos deuses a dizerem, amigos e com o meu futuro preocupados: «não escrevas»?
Ora esse eu mesmo vinha, noite fora, a guiar sozinho em estrada deserta e, de súbito, «olha a Lídia Jorge!» numa entrevista na Antena 2 a dizer coisas de que nada retive se não que falava de contos que se transformavam em romances!
Naquele momento, na estação ao lado, a RFM, a estação oficial do Rock in Rio, passavam os Offspring, que são bem melhor trabalhados em estúdio do que ali na crueza de um «ao vivo»: Num apontamento de reportagem, um puto dizia a uma bem disposta entrevistadora «pessoal, não tenham medo deste país que há aqui energia para dar e vender!».
Cá está: acordei cedo e vou começar a trabalhar, cheio de energia: desta vez ainda não é num romance, é a finalizar um pequeno livro, neste computador, não vá a primeira linha sair-me torta e eu começar a manhã logo a desanimar!
Cá está: acordei cedo e vou começar a trabalhar, cheio de energia: desta vez ainda não é num romance, é a finalizar um pequeno livro, neste computador, não vá a primeira linha sair-me torta e eu começar a manhã logo a desanimar!
Ah! Outra coisa. Estou a escrever sábado de manhã, ainda não são nove mas vou colocar data de ontem, porque foi ontem que eu vivi o que aqui está. Nisto do guardar para amanhã é que, infelizmente, não sou nada supersticioso: tenho a vida toda atrasada e o pessoal a refilar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)