13.6.08

Dias assim

Há dias em que se acorda com a cabeça a estalar de dor, depois de uma noite pessimamente dormida e se vê na rua o sol e não se pode ir passear, e livros a cercar a cama e não há tempo para os ler ou folhear sequer, dias em que nos atormentam as obrigações atrasadas e os deveres que nos esperam, dias de São Remorso pelo que deixámos para trás e que teria sido bom ter vivido, dias de má consciência porque nunca há tempo para visitar sequer a nossa mãe, dias em que os amigos só não se zangam mais porque são tão poucos os amigos quando se vive isolado, dias de filhos entretidos em vez de vividos, dias em que já não se sabe mais onde tirar tempo para um momento de nós, dias em que abre o guichet da vida e ei-la, a longa fila de utentes da nossa pessoa a reclamarem, zangados connosco e consigo desesperados.
Há dias em que o pouco que se tem parece mal, como a história da camisa lavada do pobre, cercado um homem com a eterna lamúria dos que se viciaram a mostrarem ao mundo as chagas das suas insuficiências, dos seus desamparos.
Há dias assim.
Para esses dias, em que ao desejo de morrer sucede a vontade de matar, em que entre o homem e a vida surge a sombra perigosa do já não se aguentar mais, eis a seguinte frase do Vergílio Ferreira, tirada do seu «Diário Inédito», que foi o último livro que consegui ler, só por ser pequeno número de folhas: «Bons deuses! E como justificais vós as trovoadas, se não houve, num dia infeliz de quadra e uva, meia dúzia de raios disponíveis para escavar toda esta malta e in loco
A frase foi escrita na Nazaré em 13 de Setembro de 1948, a pretexto de uns jogos florais da Curia, por sobre a rude materialidade do tempo.