O nome deste blog encerra um enigma: é que o ser fictício que nele se anuncia é afinal o ser real. Na altura em que surgiu procurava ele, entristecido autor, asilo na Literatura, refúgio na escrita, paz na escrita. Hoje, subindo a pique o escarpado da dor e alcançando a pulso os pináculos do êxtase, o coração ansioso, a alma transbordante, sabe não estar só. Foi no Dia de Natal. Um qualquer dos deuses que povoam os Céus apiedou-se e decidiu-se a um instante de bondade, oferecendo-lhe a eternidade de uma companhia. A ficção dos sentimentos tornou-se na verdade do enamoramento, vida por vida.
31.10.11
2.6.11
A inacabada narrativa
Um dia será um parágrafo de um conto: «E, no entanto, se não tivesse chovido naquele dia, se os pés não tivessem inchado, embotados, peganhentos dentro da meia rota, esmigalhados pelas botas emprestadas, talvez a vida tivesse sido possível e com ela o perpetuar do rancor não saciado. Mas a um homem a quem dói é impossível não magoar». Hoje é apenas um excerto dele. Fui procurá-lo e a tantos outros, a esmo, assim tal como a vida surge, por me ter convencido que escrever é como andar de bicicleta, uma vez aprendido nunca mais se esquecerá. Depois de o ler, pensei que não seria capaz de escrever assim, como esse que escreveu, interrogando-me como teria sido possível tratar-se de mim.
A história ofende, a daquele para quem «a vida que abreviara era já tão desinteressante como a sua e por isso não lhe deu valor».
12.12.10
A conjunção cósmica
Uma qualquer conjunção cósmica fê-lo levantar-se e dirigir-se à minha mesa. Pediu licença. Lembrou-me, ao sentar-se e como quem me pede desculpa, que sou «uma figura pública» e por isso sujeito a ser "conversado". Não encontrei modo de subtil de dizer que talvez sim, nem consegui modo de explicar o facto do meu embaraço conversável. Acrescentou-me que, tal como no teatro grego, eu deveria usar máscara para esconder a minha persona por sobre a outra. Depois falou muito, por uma qualquer conjunção cósmica que o trouxera à minha mesa. Lembrou o resto esquecido do verso do Camões: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, «muda-se o ser». Pediu-me que pensasse nisso. Na mudança do ser pela mudança dos tempos.
Há uma semana eu tinha estado com o meu Afonso a estudar filosofia. Tem 15 anos. Perguntou-me o que era a concepção do mundo. Era o tema do próximo exercício. Tentei, decompondo a palavra alemã "Weltanschauung", que traz os elementos necessários para que se entenda o que é a ideia de cosmovisão. Chegou lá porque dá os primeiros passos no Goethe Institut, e porque tem um pensamento lógico, que o leva a ter sido um excelente aluno em matemática.
Uma qualquer conjunção trouxe-me hoje a cosmovisão. Momentos depois acabei de ler o livro que arrastava. Ganhei coragem e sorri à vizinha da mesa do lado. E disse-lhe bom dia, para ela sorrir também.
Já na rua, chover na rua tornou-se uma forma de saudar a pujança da Natureza e a sua vitalidade, mesmo sem guarda-chuva.
30.9.10
Necrologia prematura
Pedem-me uma biografia e levam com uma necrologia para que os outros sobrevivos, predadores de cadáver, não inventem a lenda do que não foi. A morte é a interrupção do presente e a condenação inexorável de um indivíduo ao seu passado. Estátua de sal, nega-se-lhe o futuro. O tempo é uma ficção. Como o meu pai era mais velho do que o meu avô, o meu filho mais novo, que tem quinze anos, é neto de um homem que nasceu há dois séculos. Por isso, cheguei aos 61 com a noção de já ter vivido mais do que haverá para viver. Filho de solicitador, queria ser juiz. Mas ao ter corrido o risco de uma filha em Direito, fiz tudo para o evitar. Em vão. Eis o que mostra quanto a minha felicidade na advocacia é uma ilusão e prova quantos sucessos aparentes escondem fracassos evidentes. No caso, advogando contra uma miúda, perdi. Em suma, não quero ser o que sou nem que haja mais assim. Além disso, nasci em Angola. Não tenho, porém, a nostalgia de África, nem orgulho pelo que vi acontecer à minha terra. Vivi os pavores nocturnos das metralhadoras e das catanas, a fúria raivosa e primitiva. Dizem-me que os cubanos carregaram com o mármore das campas dos meus avós para a sua ilha. Portugal é um gosto adquirido, mas sou mais patriota do que muitos portugueses que se alugariam à Espanha, a troco de uns churros. Herdei a ânsia criadora do meu pai. Fundou um rádio clube, registou-o na frequência dos 7.945 kilociclos por segundo, na banda dos 41 metros. A rádio em onda média, descobri-a já garoto, a frequência modulada, um luxo de adolescente. Gatinhava a mandarem-me calar, para abrirem o microfone: aprendi aí a linguagem do silêncio. O culto do dever e do orgulho revoltoso, herdei-os pela via materna. Comprazia-me ser de alguém que aos oitenta e sete acha, sem vacilar, que «isto só vai é à bomba!». Eu apoio, à minha escala, armazenando petardos. Depois é a ideologia, aquilo que a cabeça fabrica e a sociedade molda. O meu horror ao burguês e ao seu mundo do ter nasceu com o existencialismo. A tragédia do homem como ser defectivo, um amputado em busca ansiosa do que lhe falta, lascando-se no perpétuo movimento que é viver, marca o meu dia e prenuncia o meu fim. Por isso, poucos desejaram, como eu, uma família, e nunca a tive. Produto de zangas sucessivas, a minha prole é uma espécie de cissiparidade, como a que estudávamos nas ciências, no tempo em que a quarta classe era a escola primária, o liceu e a universidade. Por tudo isto, não tenho uma biografia nem uma intimidade que deva ser contada. Tal como o Ruben A., eu sou o outro que era eu. Um dia perdi-me da transcendência, depois desencontrei-me da sociabilidade. Se pudesse mudar o rumo aos acontecimentos começaria por trocar de pele. Não me cansa o mundo como vontade, sim como representação. Estou exilado na Literatura, fiz da ficção casa, da escrita lar, dos leitores família.
24.5.09
Fantasia em ai menor!
Coitadinhos dos escritores de ficção, pobrezinhos dos romancistas que são os que ficcionam em extensão, ai dos novelistas que ficcionam concentradamente. Tristes todos. Dão dó e fazem pena. E porquê esta lamúria em ai, como diria e bem o Mário Viegas que outro dia vi no blog da Fernanda? Por terem de inventar fantasias que há tome por realidades, personagens que há quem assuma serem pessoas. Escrevem sobre a terceira pessoa e são lidos como se falassem da segunda. Pensam como se fossem o outro e há quem pense que o outro são eles. Tristes, pois, coitados, pobres deles. A minha compaixão em ai para esses condenados a não terem ilusão. Para muitos leitores é como se cada linha fosse um remoque, cada página um acto de rancor. Ai!
9.5.09
A possibilidade de olhar
Hoje estão nuvens escuras, diluídas num céu opaco, uma luz de prata ferindo a possibilidade de olhar. Ainda haver calor, o sol qual laranja jorrar o seu sumo de cor inundando-nos a pele, tudo isso parece estar em suspensão. Olho para o relógio como se pudesse estar por horas.
Nasci numa terra em que havia só duas estações. Já era adolescente quando aprendi, ao sentir, o que era haver o renascer da Primavera, seguir-lhe o incêndio do Verão, e ser o Outono a preparação melancólica para o recolhido Inverno. Foi na meia idade que tudo se transmutou para haver já só tempo quente e tempo frio. Agora já nem se sabe. É Primavera e faz frio, há dias de Verão em que o gelo nos paralisa o coração. Hoje é a quietude da Natureza estar, enfim, em nós.
4.5.09
O grito
Há vidas escravizantes: são aquelas que, por serem isso, roubam o tempo em que se poderia ser outra coisa. Mas há vidas que são elas próprias a escravatura: são aquelas em que, ao sermos essa outra coisa, é como se deixássemos de viver.
Uma pessoa tem uma profissão e não tem tempo para ler: os amigos compreendem e talvez lastimem. Uma pessoa tem uma profissão e lê um livro: os amigos não compreendem, preocupados, como é possível estarmos a descurar as obrigações.
É este o triste destino da cultura para os que não vivem da cultura: ou é um desperdício de tempo pelo qual nos censuram, como a um perdulário o excesso, ou uma perda de tempo pela qual nos criticam, como a um pobretanas a preguiça.
Sente-se às vezes pudor ao dizer «acabei de ler este livro». Mas, para se ser verdadeiro, não há menos ganas de gritar, em certos dias de raiva, na Praça da Incompreensão, para que ouçam mesmo os que não falam: «acabei de ler a Biblioteca de Alexandria. Há cinco minutos. Em Braille. Eu seja ceguinho!».
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