7.6.07

Quarto com vistas sobre a cidade

Eu às vezes não apareço aqui, não é porque não goste de «dar nas vistas», como com tanta inteligência o conseguiu descobrir, finalmente, um comentador de televisão, daqueles que têm sempre uma opinião zangada sobre todos os assuntos e sobre as pessoas e sobre as todas coisas. É só porque, ao ter-me sentido descoberto, neste meu gosto perverso, o ser objecto do voyeurismo público, deu-me um súbito ataque de timidez. Graças ao bom humor inteligente do MCR, descobriram-me o porquê. E agora, José?

12.5.07

O artigo partitivo

O português antigo conhecia o artigo partitivo, como o ilustra a expressão «deram-lhe da augua a beber». Aprendi isso na «Gramática do Português Antigo, um livro didáctico que aqui a Fundação Gulbenkian, que da minha janela diviso, fez o favor de editar. Escreveu-o Joseph Huber, um austríaco amante da língua portuguesa. Pena que a fórmula tenha caído em desuso. Usá-la-ia para falar daqueles que «vivem da vida» aquilo que podem, ficando o resto por fruir. Seria, talvez, a minha auto-biografia, numa palavra só.

26.4.07

Uma vida de reclusão

Entreguei hoje, enfim, terminado o texto final, revisto, as provas a granel do que será um livro de contos. Como por razões editoriais tinha que se dar à obra uma certa unidade sistemática, tive que inventar um conto final, para o encerrar com lógica e coerência. Sem tempo, escrevi-o em improvisação dorida. Depois de o ler, senti-me no internato da vida. Foi sobre isso que escrevi precisamente, numa lamúria biográfica de uma vida que me roubaram.

25.4.07

A enxada

Graças à amabilidade do MCR, estive em Matozinhos, com a Madame Kamikaze, a assistir ao notável encontro organizado pelo Francisco Guedes sobre a Literatura em Viagem. Foi aí que o vi, ao laureado escritor, o Germano Almeida, de que eu lera já dois livros. Alto, tímido, fixava-me. Numa das voltas do vaivém entre o almoço e o autocarro, surpreendeu-me: «já não se lembra de mim, mas deu-me aulas de Direito Penal, em 1976». Fiquei atónito pela amnésia, mas mais ainda por me ter cruzado, sem o saber, com quem viria a ser aquilo que hoje é. Fui então ler «O Testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo», aquele que escreveu: «sempre considerei a escola a enxada do pobre». Cá estamos amigo! Tu advogas no Mindelo, eu por Lisboa. Trinta e um ano depois, agarrados à enxada, a abrir o coval!

5.3.07

Uma salva de palmas

Há na canção tradicional com a qual se festejam os aniversários a estrofe «cantam as nossas almas». Normalmente as pessoas lembram-se do «hoje é dia de festa». Há no festejar o dia de anos a alegria do tempo triste que se foi, a promessa de sermos melhores a seguir. Por isso se juntam os amigos: para testemunharem, celebrando cantando, uma alma nova, no novo ano, «nesta data feliz».

23.2.07

O bilhete de ida

Nem sei como, mas compreendo porquê, consegui ler, aos poucos, o «Caderno de Lembranças» do Agostinho da Silva, esses momentos de memória sobre a sua pessoa. Chega-se ao fim e compreede-se o que eles quer dizer quando escreve que «toda a vida é curta para a vida». É por isso que, de novo nas suas palavras, «a morte e só a ida». Naturalmente.

20.2.07

O garrafão de água do Luso

Aproveitando o ser feriado, como se fosse indiferente empregado por conta alheia dos que só trabalham nas horas de expediente e fecham o guichet das obrigações a horas certas e metem fim de semana e ponte e mais tolerância de ponto para terem tempo inútil para si, aqui estou, com uma nesga da Basílica da Estrela à vista, a ler a biografia do Alexandre O'Neill. O O'Neill chamava-lhe «o garrafão da água do Luso», talvez pela sua forma bojuda. Mas não foi por causa disso que eu vim aqui. É que há neste livro, que em cada folha me vai entusiasmando, um momento em que a sua autora diz que não se pode reconstituir uma vida, apenas reconstrui-la. Eu, que já escrevi sobre algumas vidas alheias, sei que assim é: inventei-me através delas, ficcionando-me no que não sou.

18.2.07

Verdadeiramente itinerante

* Ontem descobri a terceira. A primeira está em Campo de Ourique, antes do Canas, a seguir à farmácia, perto do lugar onde caíu a granada que, disparada do Tejo, marcou a queda da Monarquia. São pelos vistos três mulheres alfarrabistas nesta cidade de Lisboa. «Há outras, mas que trabalham com os maridos ou com os pais», disse-me. E eu acrescentei: conheço outra, verdadeiramente itinerante, que não tem loja e trabalha com os filhos. Fazem todas parte desta enorme família, em que nunca se está só.

21.1.07

O Senhor Eu

Consegui recomeçar a ler. Lentamente. Tenho tantos livros a meio, mas achei preferível ir buscar um que ainda não tivesse iniciado, como se quisesse banhar-me em novidade. Claro que é um livro já relativamente antigo, publicado em Junho de 1978 [como isto para mim foi ontem!], com as memórias de infância do José Gomes Ferreira, o «Coleccionador de Absurdos». Vim aqui dizê-lo, por ter visto lá menção ao «Senhor Eu», assim: «Eu. Exactamente. Aquele que nunca consegui atar à minha imagem, ao que penso de mim - cada vez mais alheio ao que sou e fui. O Senhor Eu». Depois disto, que poderei eu dizer mais aqui?

15.1.07

Uma questão de imagem

Perca tempo e imagine-se como os outros o vêem. Ficará supreendido ante a imagem grotesca, caricatural, deformada, ridícula, da sua pessoa. Sofrerá com isso, pela certa. Apetecer-lhe-á chegar à janela e gritar: parem! Isso é mentira! Essa imagem é uma contrafacção! Abaixo os falsificadores! Só que o problema nem é esse. O problema, como já vem da Idade Média, é o das imagens e do venda de imagens. Hoje, com a sociedade do espectáculo, cada indivíduo tenta passar pelo que não é, vê no outro o que gostava que ele fosse. Nos olhos primeiro e na boca de muitos, somos os recalcamentos, as ambições, as fantasias das suas vidas: heróis à força, vilões por definição, seja o que for que lhes quadre. Perca tempo, imagine-se em pelota no meio da rua, um letreiro ao peito a dizer «eu não sou eu!». Não vale mesmo a pena. Fica constipado e desiludido, sobretudo com os que julga amigos e são sempre os piores algozes. Os melhores serão os que cravarem apenas alfinetes no seu retrato.

7.1.07

A peste

Folheei-o, ontem, ao livro da poesia completa do Anrique Paço d' Arcos de que a Imprensa Nacional deu à estampa agora a segunda edição. Li-as, às breves memórias literárias que escreveu e com as quais os organizadores em boa hora decidiram iniciar o volume. E não é que nelas encontro, na última linha exactamente a mesma frase biblíca que ao findar o dia, li num conto do Borges sobre «a seita dos trinta», a admoestação de Jesus: «deixai que os mortos enterrem os mortos»! Talvez esta frase coincidente seja um repto contra as inúteis pompas funerárias, talvez possa ser o retrato pestífero de um mundo acabado, ao qual, afinal, ninguém sobreviveu. Sentado na cama, embrulhado num cobertor, ouço, longínquo, o latir premonitório de um cão, a estridente sirene das ambulâncias aflitas, da ilusão de vida que é o hospital na rua em frente

3.1.07

Ver para crer

«Eu cri, tu creste, ele creu». É mesmo assim. Custa ouvir, mas é. Em matéria de crença, a fonética do passado no que à terceira pessoa respeita, alinha creu com breu. Claro que cada uma das palavras tem ressonâncias semânticas diversas: no caso do breu, as trevas nocturnas da ocaso da Razão, a urgência de um Diógenes e sua lâmpada, a alumiar-nos os passos. Prefiro o «eu cri». Sempre é um regresso à minha infância, em que crédulo em tudo, via em cada «cri-cri» o grilo da consciência da minha alma de Pinóquio trampolineiro.

5.12.06

O silêncio

Eu hoje, talvez por ter decidido que nada escreveria, vim aqui a este blog, dizê-lo. É essa a vantagem dos que parece ter alguma coisa a dizer. Haver um qualquer lugar onde, enfim eles, podem ficar silenciosos.

26.11.06

O homem invisível em versão para céguinhos

Aquela ideia de que o que se vê não é o que parece ser, eis, numa só expressão, o conceito de o «ser fictício» que dá nome a este local.
Mas não julguem haver nisto um instante de profundidade da epistemologia do tu, onde apenas há um boçal pormenor da ontologia do eu.
A intenção da frase acima e do blog que lhe rouba o nome, não é enganar os leitores para que imaginem, supresos, que, por detrás do que conhecem existe um outro ou, num novo-riquismo heteronímico, muitos outros.
Nada disso: é tão simplesmente, para que percebam, enfim, que para além do que está, nada mais há, porque o que se vê nem sequer é!
Ficamos assim entendidos e se permitem, deixem-me enroscar na minha invisibilidade, porque hoje é domingo e há dias em que um homem sente ganas de desaparecer.

18.11.06

Subtlileza irónica

Há quem não goste do José Gomes Ferreira por causa do primarismo militante em que por vezes, incomodados, o surpreendemos, ele cuja subtileza irónica lhe deveria exigir mais da inteligência. Mas, enfim, teimoso e pertinaz, lá voltei hoje à leitura interrompida do diário a que chamou «Os Dias Comuns». Claro que o Gomes Ferreira não gostava de muita gente, mas teve a delicadeza de numa advertência inicial à obra inscrever para os leitores vindouros: «imprimam sempre esta sentença no princípio de todos os meus diários: Àqueles que ofendo, por ter sido mal informado, peço que me perdoem e continuem a sorrir para a imagem». Sorri-me eu também ao ler isto, como quando li aquela outra parte em que ele confessa que num dedicatória de um livro seu o fez com um «a Fulana, pelo seu talento de leitora»!

4.11.06

A tragédia da vida alheia

Já perto da minha casa, quando a chuva nos fez separar, o meu amigo que é sábio explicava-me, recalcitrante com o português usual, como hoje se abusa do possessivo verbal, sem sentido. O exemplo podia ser o escrever «a sua vida», em vez de «a vida dele». Cheguei a casa com a ideia na cabeça. Claro que há sempre uma densidade filosófica por detrás de cada palavra. Realmente, é despudor dizer-se «a sua vida» falando a alguém quanto a algo que não lhe pertence. E não preciso invocar o Santo Nome de Deus em vão. É uma verdade que os apaixonados conhecem com o coração, sentindo-a, antes de a compreenderem, pensando-a com a cabeça: «a sua vida» perderam-na, ao entregarem-se ao ser da sua paixão. Nalguns casos vivem possuídos, em outros possessos.

1.11.06

A vala comum

Hoje, talvez por ser véspera do dia de finados, lembrei-me do Mozart que foi enterrado num vala comum. Diz a lenda que, por chover muito, nem os amigos chegaram ao cemitério, apenas um cão lhe prestou a honra dos vivos.
O facto tem toda a carga simbólica que a sua vida e obra ainda melhor exprimem.
Sempre me impressionou que todos aqueles que, imbuídos de espiritualismo, frequentemente religioso, declaram a prevalência da alma sobre o corpo, tenham tanta preocupação quanto ao local onde vai ficar, o seu inerte cadáver: ele são jazigos, talhões comprados para sepulturas perpétuas, cremações, enfim, tudo o que traduz, significa e manifesta um afã terráqueo quanto ao corpóreo acidental em contrário com o que dizem pensar quanto ao anímico essencial.
Ora precisamente hoje, inumado no escritório, a trabalhar, morto de cansaço, descobri, depois de pesquisar num intervalo desentorpecente, que parece não ser permitida a vala comum. Mesmo o indigente terá direito a sepultura individual!
Foi uma surpresa mortal, mas pior do que isso, o nem ter afinal a certeza de nada sobre a morte, estando ainda vivo!
É que, julgava eu, que a velha legislação, dispersa pelas empoadas estantes da minha livraria, me tinha facultado um modo infalível de ter sossego depois do «passamento»: conjugando o estatuído na Postura Municipal, publicada em Edital de 14 de Janeiro de 1941, com o disposto na Portaria n.º 9544, de de Junho de 1940, resultava que nos cemitérios «em secções especiais poderão ser estabelecidas sepulturas para inumação gratuita de indigentes» e [§ único deste último diploma] «sobre as suas sepulturas não será permitida a colocação de quaisquer sinais funerários ou revestimentos».
Só que o afã legislativo nem os mortos deixou em sossego. Primeiro, foi o Decreto-Lei n.º 411/98, de 30 de Dezembro, a alterar o chamado «Direito mortuário português». Depois foi o Decreto-Lei n.º 206/2001, de 27 de Julho, alterado pelo Decreto-Lei nº 41/2005 de 18 de Fevereiro de 2005 , e ainda mais a Lei nº 30/2006, de 11 de Julho, isto entre tantos outros.
Enfim, enterrado nestes sete palmos de normas jurídicas, desisto!
Talvez haja na legislação sobre resíduos sólidos alguma salvação para o meu problema.
É que eu não quero sepultura individual, nem sinal de presença! Quando me for embora, que fique a saudade no coração dos que ainda se lembrarem. No mais, se for um cão no cortejo, já me dou por contente. Ao contrário de tantos humanos, o cão, quando nos vê, salta-nos às pernas de alegria, como se a mostrar-nos que, para alguém, somos um momento único, só pelo facto de existir.

9.10.06

O reflexo do luar

Antigamente era uma cabana em madeira na areia, agora parece um bar das docas em Lisboa. Já foi um restaurante modesto de praia, agora dá-se ares de selecto lugar citadino. Já se comeu ali um fresquíssimo peixe, hoje tasquinha-se, roendo-o, um córneo bife de boi. Já houve por ali a naturalidade de ventres bojudos e peitos descaídos, casais e uma ranchadas de filhos, hoje são meninas de formas alçadas a empertigarem-se redondas para namorados quadrados. Uma só coisa ainda lá está: o mar e a luz, digo eu que só vi a negritude da noite e o reflexo do luar.

2.10.06

Rápidas melhoras

Nós hoje, os teus amigos, os teus leitores, velamos aqui, ansiosos que tu melhores, por te querermos bem. Deixamos-te flores em adjectivos risonhos, chocolates em advérbios de melhores dias, um livro da gramática do bem viver. Ao melhorares depressa, estaremos todos aqui, expectantes e felizes.

1.10.06

O processo de exclusão

Eu sou quem sou por me não negar ser o outro. Só assim o compreendo, porque eu poderia ser o que ele é. Descobri isto esta manhã. Para tanta inteligência que por aí há, isto é óbvio, foi por causa da estupidez da minha vida que eu consegui, enfim, chegar até lá. Ao chegar à rua, tentei fixar a frase, para a vir escrever. Por um triz, passava-me, confundida e baralhada: eu sou quem sou, porque o outro não sou eu. Assim, ou parecido, tanto faz, está na hora de ir lanchar. Oxalá o outro não apareça, porque só há queijo fatiado que chegue para um.